Tem gente que começa a empreender com plano de negócios, planilha e reserva financeira. E tem gente que começa num impulso. A Marcelha Soares, convidada do primeiro episódio do Papo de Donas, começou do segundo jeito: parcelou em 12 vezes uma máquina de corte a laser sem saber ligá-la, sem saber que material usaria e sem saber o que iria vender.
O que veio depois desse "surto", como ela mesma chama, é uma história sobre cansaço, recomeço, foco e liberdade. E sobre algo que quase ninguém conta: a vontade de empreender costuma chegar muito antes de a gente enxergar o caminho.
Trabalhar muito não é o mesmo que construir alguma coisa
Marcelha trabalha desde os 14 anos. Aos 28, mantinha dois empregos ao mesmo tempo: entrava às 7h30 da manhã em um e saía quase às 10 da noite do outro. Foi aí que caiu a primeira ficha. Ela trabalhava sem parar, mas não estava construindo nada para o próprio futuro.
A reação foi radical: pediu demissão dos dois empregos, juntou o que tinha e passou três meses na França. Na volta, trouxe uma pergunta que guiaria os anos seguintes: o que fazer para ter estabilidade sem precisar trabalhar tanto quanto sempre trabalhou?
"Eu tinha muito o hábito de trabalhar, mas gastava com coisas que não me traziam nada."
Da moda ao RH, em busca de tempo
O primeiro caminho foi a moda. Ela estudou, se formou como personal stylist e trabalhou com treinamento de vendas para o varejo feminino. Mas percebeu que, nesse meio, o reconhecimento dependia muito de quem você conhece, e ela não queria mais se desgastar para crescer.
Por sugestão de uma cliente, foi para Recursos Humanos. O objetivo era claro: profissionalizar a carreira e ter finais de semana, feriados e temporada livres, algo raro em Ubatuba, onde o comércio costuma funcionar de janeiro a janeiro.
Por um tempo, deu certo. Numa lavanderia da cidade, ela teve liberdade para colocar a teoria em prática, entregou resultados visíveis e finalmente conseguiu desacelerar.
Quando a mente pede para parar
O problema veio quando ela aceitou um segundo trabalho, em um restaurante. Restaurante não fecha no fim de semana, e lá estava ela de novo trabalhando sábados, domingos e noites. Exatamente a rotina da qual tinha fugido.
Foram só dez meses, mas o suficiente para chegar ao esgotamento. Ela deixou os dois trabalhos e, mesmo depois, já em um escritório tranquilo e com chefes que descreve como incríveis, não conseguia render. Não por falta de capacidade, mas por puro cansaço acumulado.
"Eu trabalhei tanto a minha vida inteira que me vi, aos 33 anos, cansada de trabalhar."
Foi nesse momento, ainda empregada, que ela comprou a máquina.
A máquina que ficou meses parada
A escolha não foi totalmente aleatória. Filha de marceneiro, Marcelha cresceu entre ferramentas e madeira e sempre gostou de desenhar mandalas. Quando pesquisou o preço de peças decorativas, achou tudo caro, quis entender como eram feitas e descobriu a máquina de corte a laser. Conversou por duas semanas com o vendedor e se encantou.
Só que comprar foi a parte fácil. A máquina passou cerca de seis meses parada, porque depende de um programa de computador para funcionar e ela não sabia operá-lo. Foram cursos online, grupos de estudo e muitas tentativas até sair a primeira peça.
Os primeiros produtos foram enfeites de Natal e lembrancinhas para a família, no Dia das Mães e no Dia dos Pais. Aos poucos, a ideia de viver daquilo foi ficando concreta.
"O enxergar veio bem depois do desejar."
A conversa que mudou o rumo do negócio
Uma das viradas veio de um encontro quase por acaso. Ao comprar um tapete em uma loja da cidade, ela comentou sobre as mandalas com o dono, Fábio, que fez uma pergunta direta: ela queria fazer aquilo por gosto ou por dinheiro?
A resposta foi "os dois, mas por dinheiro primeiro". E o conselho dele foi igualmente direto: mandala vende pouco. Lembrança de Ubatuba vende. Tartaruga, mar, barco, qualquer coisa com a cara da cidade.
Foi assim que nasceu o foco atual da Regler Art: lembranças artesanais com o DNA de Ubatuba, como a Estátua do Pescador, o barquinho caiçara e São Pedro Pescador. Marcelha busca referências, desenha as peças, envia para a máquina e depois faz à mão a parte artesanal: destacar, pintar e montar cada uma. Diferente das lembrancinhas de gráfica, produzidas aos milhares, nenhuma peça sai exatamente igual à outra.
Hoje o foco são os lojistas da região, e não só lojas de artesanato. A ideia é que padarias, conveniências e comércios com movimento de turistas tenham ali uma lembrança artesanal da cidade, com preço acessível para que o visitante leve mais de uma.
Escolher um caminho e aceitar a parte difícil
Quando perguntada sobre como lida com as dificuldades, Marcelha fala de foco. A máquina faz muitas coisas, e ela entendeu que não daria conta de todas.
"Você tem mil possibilidades. Vai ter que escolher uma para seguir e fazer bem feito."
Os obstáculos foram mudando de cara: primeiro, não saber usar a máquina; depois, não ter clientes; depois, peças quebradas que paravam a produção, problema que ela resolveu mantendo um estoque de reposição. Na baixa temporada, chegou a pensar que tinha escolhido errado. Com o tempo, entendeu que aquela era só uma fase do ciclo de Ubatuba.
Há também uma ironia que ela conta rindo. Quando decidiu trabalhar atrás da máquina, pensou que finalmente deixaria de lidar com pessoas, logo ela, que vinha do RH. Só esqueceu que alguém precisaria vender. Hoje, ainda sente um frio na barriga antes de fechar negócio, mas vai mesmo assim. O conselho dela é mapear com antecedência qual será a parte mais difícil do novo caminho e decidir como você vai atravessá-la.
A maior conquista não foi o dinheiro
Para Marcelha, a grande vitória do empreendedorismo foi a liberdade, no sentido de saúde mental: poder organizar o próprio tempo e a própria energia, ter dias ruins sem precisar fingir que está tudo bem e compensar as horas quando estiver melhor.
Ela consegue ser mãe do lar e artesã no mesmo dia. Às vezes está produzindo às 11 da noite, mas porque escolheu e porque está gostando. E reconhece que essa liberdade tem apoio: o companheiro, João, é parceiro no negócio e ajuda com entregas, embalagens e até na produção depois do expediente dele. O sonho é que a Regler Art seja, cada vez mais, uma empresa de família.
O recado para quem está onde ela já esteve
Para a mulher que está hoje cansada, presa a uma rotina que não faz mais sentido, Marcelha deixa um conselho em três partes. Primeiro, desenhe com clareza o que você quer e o que seria estabilidade para você. Depois, identifique os trechos difíceis do caminho e pense em como vai passar por eles. Por fim, arrisque e acredite, porque só você sabe o que está dentro de você.
E, se precisar dar uma surtada no meio do caminho, tudo bem. Faz parte.
Onde encontrar a Regler Art
Os trabalhos da Marcelha estão no Instagram da Regler Art, @regler.art, que funciona como portfólio da marca, e os pedidos são atendidos pelo WhatsApp.
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