Ela tinha 15 anos quando decidiu que seria cabeleireira e 21 quando abriu o próprio salão. Durante boa parte dos 26 anos seguintes, Patrícia Ramos, a Pat, mediu o sucesso do jeito mais comum: mais clientes, mais horas, mais faturamento. Se deixassem, ficava 10, 12 horas no salão.
Foi preciso uma pandemia para ela fazer outra conta. A convidada do segundo episódio do Papo de Donas conta como descobriu que tempo para viver vale mais do que qualquer meta de faturamento, e como reorganizou o negócio inteiro em torno dessa descoberta.
Um plano de vida desde cedo
Pat começou a fazer cursos aos 17 anos, enquanto trabalhava com carteira assinada numa pousada, das 6h às 14h. O resto do dia era para estudar e praticar. Depois de três anos, deixou o emprego, passou alguns meses em Taubaté fazendo uma especialização e trabalhando em salão, voltou, ganhou experiência em outros espaços e, aos 21, abriu o seu.
Ela conta que sempre desenhou a própria vida na cabeça, como um projeto. Viu as irmãs casando cedo e decidiu que não queria isso tão cedo. Com um ano de profissão, já conseguia se sustentar e morar sozinha.
Quando a cliente pergunta "quem é a cabeleireira?"
O começo teve um obstáculo curioso: a idade. Nos cursos, quase todos os colegas eram bem mais velhos, e no salão as clientes chegavam perguntando quem era a cabeleireira. Era ela, com cara de menina.
A confiança veio aos poucos, e boa parte veio da igreja que ela frequenta até hoje. Alguém reparava no cabelo de quem estava sentada no banco da frente, perguntava quem tinha feito, e o nome dela circulava. Em cerca de um ano, Pat já tinha a sua carteira de clientes.
"Eu tenho medo de mim por não ter medo."
Ela mesma admite que a coragem tinha dois lados. Ajudou a se arriscar cedo, mas também podia levar a dar passos maiores que a perna. Desistir, porém, nunca passou pela cabeça: nos dias difíceis ficava triste, mas seguia, porque estava interessada de verdade no que fazia.
A pandemia que virou a chave
Durante a pandemia, o salão passou a funcionar de forma muito limitada, com poucas clientes e poucos dias por semana. Dava para manter o espaço e pouco mais. Pat decidiu procurar o lado bom: se fosse preciso, voltaria a atender a domicílio, de moto e com a maletinha de materiais.
No resto da semana, a família alugou uma casa na zona rural, no alto da serra. Ali, ela redescobriu brincadeiras da infância, como descer uma ribanceira numa tampa de caixa d'água. E percebeu que estava vivendo bem com muito pouco dinheiro.
"Eu tô vivendo coisas que eu gostaria de estar vivendo sempre."
Quando a rotina voltou, já não dava para desver. Os fins de semana na serra e nas cachoeiras viraram regra, e ela traçou um novo plano: trabalhar de um jeito por um tempo e, depois, mudar de vida.
A mudança para o interior
O plano ganhou endereço quase por acaso. A irmã já morava em Lagoinha e, conversando com um vizinho, comentou que Pat procurava algo por lá. O vizinho, por sua vez, queria se mudar para Ubatuba. A primeira proposta não fechou: ele queria trocar os imóveis e ainda receber dinheiro por cima. Pat não teve pressa. Visitou outros lugares, mas nenhum lhe passava paz.
Três meses depois, o vizinho voltou com uma troca direta, sem dinheiro envolvido, e o negócio fechou. Hoje ela leva cerca de uma hora para chegar ao salão, mais ou menos o tempo que muita gente gasta para atravessar Ubatuba em dia de movimento. E chega em casa como quem desliga as luzes antes de dormir: só se ouve passarinho.
Menos serviços, mais referência
A mudança de cidade só funcionou porque, um ano antes, Pat já vinha enxugando o salão. Fazia de tudo, e fazia bem, mas vários serviços ela só fazia porque rendiam. Foi cortando esses e ficando com o que gostava.
Isso resolveu outro problema: ninguém sabia em que ela era referência. Era boa em loiro, em corte, em tudo, e por isso em nada específico. Ela escolheu os cabelos naturais, crespos e cacheados, um público com poucas profissionais especializadas. A escolha veio também da própria experiência: depois de cerca de 25 anos alisando o cabelo, assumiu os cachos e passou por todas as dificuldades que hoje vê nas clientes.
Hoje o atendimento funciona como uma pequena consultoria. Ela explica cada passo, porque muitas clientes acham que o cabelo é o vilão quando o problema é falta de informação.
Da curiosidade a uma linha de cosméticos
Na própria transição, Pat percebeu que ingredientes de origem vegetal davam resultados que ela não conseguia com produtos convencionais, mesmo de marcas boas. E faz questão da precisão: não chama os produtos de 100% naturais, e sim de produtos com ingredientes de origem vegetal, como a cera de abelha, que chega processada para virar cosmético.
A curiosidade a levou a uma oficina de formulação em São Paulo e, depois, a um curso de fórmula autoral. Ela compara o estudo a uma receita de bolo: cada ingrediente tem uma função e precisa combinar com os outros. O resultado foi uma linha completa para cabelos cacheados, com xampu, condicionador, máscara e um produto que junta gelatina e creme num só, para facilitar a rotina. Agora ela está passando a linha para versões sólidas.
Os números mostram por que valeu a pena. Manipulando os próprios produtos, ela conta ter derrubado em 80% os gastos com fornecedores. E a linha, ainda no começo e com pouca divulgação, já paga o aluguel e a conta de luz do salão. Tudo o que ela usa no atendimento é o que a cliente pode levar para casa, para ter o mesmo resultado.
O que é sucesso agora
A meta da Pat é ir ao salão só duas vezes por semana, o bastante para matar a vontade de trabalhar com o que gosta, e dedicar o resto do tempo aos produtos. O dinheiro continua importante, porque as contas chegam todo mês, mas deixou de ser o foco.
"O meu tempo saiu mais caro."
Para quem também busca qualidade de vida, o conselho dela é não deixar para depois: começar a viver quanto antes, porque a vida está passando. E, no trabalho, escolher o que se gosta de fazer, porque aí ele não pesa nos ombros.
Onde encontrar a Patrícia
O estúdio da Pat, em Ubatuba, é especializado em cabelos crespos, cacheados e naturais. Os produtos que ela usa no salão e também fornece estão no Instagram @fitocrespa.
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